A pior aula de Branding

  • Authorrfaccini
  • Date06 de janeiro de 2015
  • CategoryBlog

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Por que o Estabelecimento tem esse nome?

Daniel Moura e eu batemos cabeça durante dias pensando no nome do estúdio que estávamos começando juntos. Em um ponto tivemos que colocar uma regra:

1. O nome tem que ser algo que não sejamos capazes de estragar, deturpar, zoar, avacalhar, humilhar e trocadilhar de nenhuma maneira.

Obviamente essa foi a primeira regra a cair durante o brainstorm.

Entendemos que qualquer nome poderia ser mal interpretado por qualquer pessoa em qualquer momento. Os dias viraram meses e nada de nome. Continuávamos chamando o estúdio pelo apelido, “Escrotório”.

Das listas que cada um criou, Daniel gostou de Chalk e eu gostei de Estabelecimento. Da minha ideia ele não gostou porque achou que era uma piada sem graça que ia causar confusão nos porteiros. Eu não gostei de Chalk porque não queria um nome em inglês. E assim o Escrotório continuou funcionando pelo resto do ano sem nome oficial (acabamos usando um nome genérico para quebrar o galho) e, quando chegou ao fim, cada um abriu seu estúdio, e os nomes que gostamos voltaram. Daniel fez o Chalk Studio, que nenhum porteiro entende, mas tudo bem. Chalk tenho que ir.

Quando eu fiz minha lista de nomes, coloquei algumas regras também: não podia ser piadinha, nem nome engraçadinho (já tinha muito estúdio de design com nome de comida) e nem trocadilho, o que pode ser bem estranho se você me conhece.

Aí que está a parte que quase ninguém sabe:
O nome Estabelecimento não é uma piada com “estabelecimento comercial”.

Gosto de criar usando coisas que eu aprendi ao longo da vida, e tem muita coisa legal que eu resgato da escola. Adoro inventar baseado em física, química, matemática (segunda coisa muito, muito estranha se você me conhece). Lembrei das aulas de Geografia e História: toda nação, em algum momento, passa por um período de transformação chamado de Estabelecimento. Pode ser Estabelecimento econômico, político, de novas leis. Pode ser um ponto onde a nação se torna soberana, se firma perante às outras, estabelece regras que iniciam uma nova era naquela história.

É claro que eu tinha consciência que ninguém ia lembrar disso e o nome ia parecer uma piadinha.
Mas eu entendi uma coisa ao longo do processo: o estúdio era uma coisa tão pessoal que o nome teria que ser muito fundamentado também na minha história. E sendo filho de professores de português e geografia, faz todo o sentido quando eu digo que a História, a etimologia e a Semântica são tão importantes. Hoje, quando um cliente aparece em dúvida porque o produto dele tem um nome fora do convencional, eu analiso a história por trás e algumas vezes me identifico e acabo defendendo o nome esquisito (um abraço pro meu irmão Reule da Seagullsfly!).

Qualquer nome pode ser mal interpretado e causar confusão.

Talvez por isso o símbolo do estúdio seja tão geométrico, sisudo e militar (a parte militar é a terceira coisa esquisitíssima para quem me conhece). Ele é quase uma resposta à piadinha que não existe no nome. Por isso eu assumi essa identidade visual que remete a Estado, lei marcial, forças armadas e patentes militares.
Ponto negativo: pode ser associado à estados totalitários e ditaduras. Mas ok, nesse ponto podemos relaxar um pouco, não precisa ser tão sério né?

Ah, e por que o estúdio não tem meu nome? Porque eu não queria atender o telefone falando Renato Faccini e nem ver Renato Faccini impresso em tudo o dia inteiro. Eu adoro meu nome, mas tenho um limite definido aí de quantas vezes eu aguento Renato Faccini sainda da minha boca em um mesmo dia e ser todo renatofaccinizado. Isso é uma coisa minha, ok Renata Moura dona do Studio Renata Moura que eu adoro? E é lógico que eu não posso escrever um texto desse tamanho sobre criação de nome e marca sem falar no Guilherme Sebastiany, dono do Sebastiany Branding, que está aí pra provar que tudo que eu falei pode estar completamente equivocado.

E por causa disso as pessoas usam Estabelecimento ao invés do meu nome? Não, claro que não – mas ter criado uma marca me dá satisfação pessoal e paz de espírito. Entender que eu não precisava do nome mais sólido do mundo e de uma identidade visual completíssima foi a parte que faltava.

Até hoje só uma pessoa disse que não gostou do nome, meu amigo Tyler Johnson. Mas eu não sei se é porque ele acha ruim em qualquer língua ou se no idioma nativo do Tyler a palavra establishment realmente não soa bem. E eu acho establishment muito legal, é meio tipo Enterprise (mas não queria um nome em inglês). Aliás eu adoro o nome do estúdio do Tyler e da Flavia, o Nomad Ink.

Gosto de trabalhar com antagonismos e isso é quase inconsciente. Quando estou triste, crio coisas felizes. Gosto de colocar bom humor no trabalho, mas não gosto que ele seja uma piadinha boba. Quando eu brinco, quando coloco uma assinatura como “Design & Aventura”, é uma piada, mas também é uma coisa na qual eu acredito. Minha assinatura no cartão de visitas é algo que pode ser muito mal interpretado dependendo do cliente, por isso é melhor que eu tenha dois cartões. “Renato Faccini – Last Starfighter” não é uma coisa que eu possa entregar para qualquer um (e mesmo assim algumas vezes eu arrisco – porque afinal é uma aventura!). Ok, é uma piada, mas é uma brincadeira na qual eu acredito, que me traz boas memórias de infância, um filme que eu adorava, da época em que eu queria ser o Último Guerreiro Estelar. E no meu estúdio, eu posso ser.